Autoavaliação corporal em tempos de redes sociais

Last Updated on 21 de abril de 2021 by Elena Salazar

Existem duas caras da moeda para quem consume redes sociais incansavelmente: uns aproveitam conteúdo para o crescimento profissional, familiar, físico, psicológico; outros, optam por entrar em comparações, criticar e até “cancelar”, palavra muito usada nas mídias na atualidade.

Depois de um ano de pandemia, a sociedade ainda vive o dia a dia do isolamento, mesmo com os avanços de vacinação acontecendo, a “era” pandêmica trouxe à tona realidades que ficaram escondidas pelo fato de estar sempre ocupados com a rotina, doenças mentais, inconformidades com o corpo físico, julgamento intenso e desconforto.  Tudo isso se intensificou não só pela chegada da covid 19, mas também pelo consumo excessivo de internet.

Entrevistamos o profissional de educação física Thiago Miranda, e a psicóloga cognitivo-comportamental Renata Casemiro Cavour, onde ambos concordaram que a melhor receita para a autoaceitação e a autoestima é tomar consciência de dentro pra fora, adaptando o corpo e  a mente à hábitos saudáveis com exercícios físicos,  sendo responsáveis pelo que consumimos na internet e entender que cada ser humano tem seu próprio processo de evolução, e que as atividades físicas sempre serão a melhor terapia para ter qualidade de vida sem importar as cicatrizes de cada pessoa.

Durante as entrevistas, conversamos sobre os benefícios da prática de exercícios na saúde mental, treinamentos online para socializar, como as redes sociais influenciam no amor-próprio, autoaceitação e autoestima, e dicas para desenvolvimento pessoal.

THIAGO MIRANDA- PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICARegistro: 025297

Como você visualiza as redes sociais em relação ao constante bombardeio dos “corpos perfeitos”?

As redes sociais são poderosas, porém perigosas. Você pode acessar informações que vão te ajudar a chegar ao seu objetivo, como lives, conteúdos gerados por profissionais da saúde ou se basear num estereótipo de corpo perfeito que muitas das vezes está longe da sua realidade e essa comparação pode gerar uma frustração, ansiedade ou até mesmo uma depressão. Lembre-se que muitas pessoas possuem um corpo são, porém, a mente não. Falo isso, pois acompanho muita gente e algumas apesar de terem um “corpo perfeito”, estão sempre insatisfeitas e com muitas questões internas a serem resolvidas. Lembre-se que saúde é um bem-estar físico, emocional e social. Por isso, evite comparações. Você deve fazer o seu melhor com as condições que possui, até ter condições melhores para fazer melhor ainda.

 Qual impacto tem a prática de exercícios físicos na aceitação do corpo?

Primeiramente, é de suma importância entender por que você não aceita ou está insatisfeita/o com o seu corpo. Muitas das vezes, essa não aceitação está relacionada com o histórico de vida, coisas que aconteceram no passado, normalmente na infância, e geraram uma crença limitante na fase adulta. E entender isso é de suma importância para a aceitação do seu corpo. Outro ponto importante, é o entendimento do porquê você quer gerar mudança. Será que você realmente quer melhorar ou apenas quer ser aceita /o dentro dos padrões impostos pela sociedade? Após entender isso, poderemos criar estratégias para que a pessoa aceite seu corpo ou mude de uma forma saudável e prazerosa. E o exercício é uma excelente ferramenta, pois o impacto dele na saúde mental, fazendo com que a pessoa melhore seu bem-estar, o estado de ânimo e sua autoestima, é fundamental para a construção de uma boa relação com seu corpo. Além é claro, das melhorias físicas geradas pelo exercício.

Além dos benefícios à saúde corporal, você acredita que treinar diariamente aumenta a autoestima das pessoas, por quê?

Quando praticamos exercícios existe uma liberação hormonal que traz uma sensação de bem-estar e felicidade. Se você faz isso todos os dias é como se desse doses de felicidade para o seu corpo diariamente. E um dos efeitos disso é o aumento da autoestima.

Qual é a relação entre amor-próprio e prática saudável de exercícios físicos?

Acredito que o amor-próprio faz com que você saia da inercia. O amor por você é tão grande que faz com que você queira melhorar, mesmo que não tenha as melhores condições para aquilo. Após ter iniciado esse movimento, os exercícios irão gerar um aumento da autoestima, fazendo com que a pessoa goste do processo e dos resultados, e consequentemente mantendo a prática regular de exercícios. Um faz com que você comece e o outro faz com que continue.

Renata Casemiro Cavour – Psicóloga Clínica (Cognitivo-comportamental)Registro: CRP 36910-05

Sabemos que as redes sociais têm um grande impacto na sociedade e mais nos tempos de pandemia que estamos vivendo, mas é uma mão dupla, na sua opinião ajudam ou afastam mais a homens e mulheres a aceitar seu corpo, por quê?

Como você falou na pergunta, a rede social virou um personagem principal nas autoavaliações corporais que nos leva a dois cenários bem opostos entre si. Por um lado, vivemos em uma cultura onde somente um corpo perfeito pode ser exposto aos olhares curiosos de uma rede social. Por outro, é crescente a filosofia da ideia de um corpo saudável, adquirido com hábitos saudáveis, que possa lhe trazer benefícios de longevidade e não necessariamente atrelado ao estético-cultural, também pode ser visto propagado em alguns canais mais sérios. Nunca se falou tanto em saúde e cuidado corporal nas redes sociais como na pandemia, não pelos parâmetros estéticos de corpo esculpido, mas como um corpo funcional que precisa estar saudável, física e mentalmente, para suportar o que estamos passando. A beleza do corpo ainda é vendida como a ideologia do corpo definido, mesmo que para consegui-lo seja a base de imediatismo de dietas extremistas ou um exercício físico em excesso e sem direcionamento, que pode ocasionar em vários malefícios físicos e mentais, como a frustração, por exemplo. Entretanto, com o olhar que se refere como saúde com algo relacionado ao bem-estar (conceito já definido há anos, mas finalmente agora sendo vivido com mais intensidade), traz pontos como amor-próprio, auto generosidade, como aspectos principais e importantes para um olhar para si com menos crítica e julgamento.

O isolamento social trouxe o aumento de doenças mentais como depressão, ansiedade, pânico, algumas pessoas descobriram o jeito de treinar em casa online e descarregar a agonia de ficar trancado 24 horas 7 dias, você acredita que os exercícios físicos mesmo online diminuem o risco destas doenças, por quê?

Claro que sim. As doenças que você descreveu também possuem a parte química, como descontrole de alguns hormônios, que já foi comprovado em vários estudos o quanto o exercício físico pode atuar como verdadeiros “remédios”, ou até mesmo, prevenindo esse descontrole. São reais as modificações que a atividade física faz à saúde mental. Ao falarmos especificamente em relação à pandemia, vejo claramente outros aspectos igualmente importantes na prática de exercícios online: o socializar, mesmo virtualmente, traz a sensação de não estarmos sozinho nessa jornada; a criação de uma rotina saudável dentro de um cenário que tanto se repete: o fato de estarmos somente em casa pode nos trazer procrastinação e/ou excesso de trabalho, logo o exercício também atua para extravasar, melhorar postura e melhorar atenção/foco; além de ser um momento de entrarmos em contato conosco e movimentar a nossa energia interna.

Qual conselho você daria para as pessoas que estão querendo aumentar a autoestima e se aceitar?

A receita é simples: para melhorar a autoestima e a autoaceitação, precisamos ter tomadas de consciência, para que a vida seja “arrumada” de dentro para fora. Primeiramente, reconhecer seu contexto de vida e viver o presente. A pandemia trouxe muita melancolia do passado ou ansiedade para um futuro, o que faz as pessoas não se observarem no hoje. Segundo, reconhecer a si, seus feitos, seu estilo, diminuir o auto julgamento, entender que o perfeito é o que pode ser feito. Ao fazer isso, a pessoa se empodera. Estou me referindo desde coisas básicas como uma comida boa até como grandes atitudes nos mais diversos contextos. Por fim, e não menos importante, focar no seu bem-estar físico e mental, seja fazendo atividade física, procurando terapia, mas algo que lhe faça bem e que proporcione qualidade de vida, preparando, principalmente, para o novo cenário que vamos viver.